quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Era uma vez...

.:.
...Um homem que vivia tendo ideias.

Ele era um homem incomum, pelo menos se julgava assim. Vivia opinando em tudo.

Certo dia alguém deu a ele um poder imenso. Ele pegou seus amigos e os reuniu todos, dando a cada um deles uma fração do poder.

Ao amigo de luta deu o cargo de senhor das armas.

O povo não se importou com a nomeação e a soberania do país ficou abalada – mesmo sem que o povo se apercebesse dessa fraqueza.

A um segundo amigo, deu o cargo de senhor da saúde.

O povo não se importou e o país ficou doente – mesmo enfermidades mais simples acometeram a todos.

A um terceiro amigo ele deu o cargo de senhor dos esportes.

O povo não se importou e, doente, não mais praticou esportes – mesmo assim, o senhor dos esportes permaneceu no cargo.

A um quarto amigo ele deu o poder religioso.

O povo não se importou e no país nunca se viram tantas seitas e religiões surgir por toda parte da nação – mesmo assim, o país, agora essencialmente laico, submeteu-se ao amigo do homem que tinha muitas ideias.

Os homens das armas não se revoltaram contra o senhor das armas, amigo do homem que tinha ideias.

Os homens da saúde não se revoltaram contra o senhor da saúde, amigo do homem que tinha ideias.

Os homens dos esportes não se revoltaram contra o senhor dos esportes, amigo do homem que tinha ideias.

Os homens de fé não se revoltaram contra o senhor das religiões, amigo do homem que tinha ideias.

Um dia, o homem que tinha muitas ideias teve outra ideia e permutou os amigos no poder, sem consultar o povo.

O senhor das armas virou senhor das religiões. O senhor dos esportes virou senhor das armas. O senhor da saúde virou senhor dos esportes e o senhor das religiões virou senhor da saúde.

E o povo não se importou – mesmo sabendo que todos os senhores amigos do homem que tinha ideias não sabiam nada sobre armas, saúde, esportes e religião.

E o homem que tinha ideias continuou tendo ideias.

Certo dia, enquanto sonhava, ele teve outra ideia. Acordou e resolveu executar o que havia pensado no sonho.

Chamou um homem das armas para cuidar das armas. Chamou um homem de religião para cuidar das religiões. Chamou um homem da saúde para cuidar da saúde e, finalmente, um homem dos esportes para cuidar dos esportes.

E o povo não se importou – mesmo sabendo, tempos depois, que as ideias do homem que tinha ideias não foram executadas porque os amigos do homem que tinha ideias o executaram antes que as ideias fossem colocadas em prática.

Hoje, aquele povo, antes forte e soberano, existe apenas nos contos de fada que se iniciam com ‘era uma vez...’.

Nijair Araújo Pinto

Crato-CE, 6 de setembro de 2009.
22h14min

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Justapostos


Anos-luz daqui, bem distante do arco-íris, um médico-cirurgião precisou urgentemente operar uma linda princesa adolescente. Ela cresceu e encontrou seu amor-perfeito.

No império onde a princesa crescera tudo era aos avessos, mas havia felicidade, mesmo quando o monarca cometia injustiças.

O rei não era um típico mandachuva e estava longe de ser déspota, ditador... Ele era, isso sim, um artista de mão cheia! – adorava contemplar os belos quadros do pintor dos girrassois.

Na corte havia muitos soldados. O reino vivia em harmonia, mas não desguarnecia seu aparato defensivo, pois nação com exército fraco é nação sem soberania forte. Havia oficiais capitães, majores... E havia, também, o imponente tenente-coronel Justino, que adora evitar que Quirino, o coronel perversinho, maltratasse os subordinados, distribuindo pontapés.

Justino era benevolente, calmo, e adepto de um delicioso chá de erva-doce que aprendera a degustar com o tio-avô Firmino, Grão-Pará de um antigo imperador. Nos serões de família, eles se esvaíam ao sabor do chá, inebriando-se ao menor rumor da fragrância que percorria os arredores da cozinha.

Já o coronel Quirino era do estrangeiro, descendendo da Grã-Bretanha. Daí sua rispidez e seu trato certeiro e pontual trazidos de além-mar – ele não atrasava nenhuma admoestação.

Hoje é dia de festa. Todos no reino estão exaltados e eufóricos com a chegada da nova confraria de violeiros dissidentes do circo mambembe do reino da Antuérpia.

Dona Naná preparou um feijão-verde para o rei – o bondoso homem carecia de cuidados e não poderia ficar ao deus-dará, nunca. Feijão dá sustança, meu rei! – sempre advertia a doce e fiel serva.

Pratos à mesa. Todos comem. Dois soldados, numa outra mesa, discutem e um deles, à queima-roupa, desfere uma punhalada no amigo. O militar assassino era neto de um antigo guarda-noturno sul-africano, odiado pelo primeiro-ministro do rei.

Dia de luto. Feriado. Festa e consternação se misturam e as visões do mundo e da realidade se interpenetram, insinuando um vazio dentro da completude.

A água-de-colônia da princesa se confunde com o odor emanado pelo féretro do mal-afortunado homem. Do vestido cor-de-rosa da nobre senhorita, pendem feixes bordados de tecido que se esgalham harmoniosamente pelo chão. O mal-estar é geral. Morrera um excelente soldado, um homem sempre bem-humorado que nunca dera trabalho ao rei.

A princesa, bem-vestida e reflexiva, tira uma flor do jardim do castelo e inicia uma silenciosa oração-pedido: ‘bem-me-quer, mal-me-quer, bem-me-quer...’

De repente, surge um belo príncipe que se aproxima e a conforta, dando-lhe um suave beijo, bem-soante, na não.

Ambos bem-nascidos, ele bem-falante, esquecem-se do motivo da constrição que os uniu.

O padre inicia o sermão:

– Bem-aventurado todo aquele...

A voz do religioso, apesar de espalhar conforto a todos, por ser bem-ditosa, era, todavia, malsoante.

Sem-cerimônia, o rei põe fim à missa e se prostra, de joelhos, pedindo, altivamente, um sem-número de vezes:

– Pai, tende piedade de nós!

O poder extra-humano, que transcende ao nosso entendimento, é o melhor e mais potente contra-ataque, é a forma pós-histórica de se reinventar a vida em sociedade.

A rainha decretou feriado no reino em comemoração ao novo herdeiro que nascera. No mesmo instante, no reino que fica a anos-luz daqui, nascia o arqui-inimigo do futuro rei.

Nijair Araújo Pinto

Crato-CE, 6 de setembro de 2009.

20h05min