terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Uma tarde no cinema


Shopping Cariri, 16h45min. Sentia-me o pai perfeito e o marido ideal também. Às vésperas do Natal, reuni a família para assistir ao filme Lua Nova, o segundo de uma série que anda fazendo a cabeça da garotada e dos velhos – a vida está mesmo sendo vivida em pacotes, tudo no mesmo saco e servido padrão universal, cabendo em qualquer bolso, qualquer casa e qualquer nação. E ai daquele que discordar dessa realidade padronizada! Afinal, o mundo é das minorias, sempre foi!

A sessão era de 12 anos, mas o moço da portaria falou que ‘acompanhada dos pais, ela entra’ – ele se referia a minha filhinha mais nova de apenas 7 anos. Preciso ver depois se essa anuência do moço da portaria tem mesmo respaldo legal... Juristas de plantão, uma forcinha, por favor!

Eu era o mais velho do grupo, mas, acreditem, fui o único a ter direito à meia! A esposa não estuda mais – virou empresária; as duas filhas, estudantes, alegaram que não andavam de ônibus e por isso dispensavam a carteirinha que dá direito à meia. Não pensem que paguei pela metade por estudar, não, não foi por isso! Dei mesmo foi a velha e famigerada carteirada que os milicos adoram! – abri a carteira e surgiu a milagrosa vermelhinha que tem o condão de abrir portas...

Segundo passo, segunda etapa do processo pai-boa-praça: comprar a pipoca e os refris. Na realidade seria o terceiro passo, pois eu as deixei sentadinhas e bem acomodadas antes de voltar e quase me perder entre quatro sacos de pipocas enormes (não tão exorbitantes quanto o preço que os pagou) e quatro latas de guaraná, geladinhas!

Ufa! Missão cumprida. Todo mundo sentadinho. Boquinhas abertas mastigando – nossa, a garota atrás de mim mastigava porcamente e aquele barulho de saliva misturado com pipoca moída me dava náuseas, ânsia de vômito... Quase voo em cima dela e peço: ‘moça, pelo amor de Deus, mastigue em silêncio!’ Não tenho muitas neuras, mas se tem algo que não suporto é mastigado com sonoridade de rapper.

Entrou um casal. A garota era 50%. Parecia toda pela metade. Baixinha. Loirinha. Acanhadinha... O parceiro era o típico brutamonte e tinha uma cabeça certamente inspiradora de um dos personagens do seriado Simpsons. Sentaram. E o cara começou a fazer gracinhas que acertaram em cheio o bom humor da minha caçula. De repente, eu me vejo assistindo a um diálogo fervoroso entre minha garota de 7 anos e um comparsa. Eles sorriam. Ele contava aquelas piadinhas de fim de tarde... Nisso as luzes se apagam, iniciando-se os trailers. Complicado foi explicar para minha filha que era hora de encerrar o papo com o amiguinho, mas deu tudo certo.

No segundo trailer minha atenção foi desviada. Eram três mocinhas que chegavam pra sentar. Nessa idade não basta apenas existir, tem mesmo é que aparecer! Assim, não bastasse o atraso, tinham que tirar a atenção dos presentes. Eram três belos exemplares de mulher, isso é verdade! Estavam perdoadas, temporariamente.

Vampiros... Cenas de amor juvenil... Sangue! Na cena em que a garota se cortou, pus meus instintos de homem pra fora e literalmente eu me espalhei na poltrona. Difícil explicar a reação que se seguiu, mas me veio uma vontade quase incontrolável de liberar os lastros do esfíncter e soltar um pum! Imediatamente, num perfeito ato reflexo, tranquei a saída. Li num livro de Biologia que fagocitose é uma espécie de mastigação de coisas sólidas; pinocitose, continuando o raciocínio, seria digestão de matéria orgânica líquida... E movimentos peristálticos, por sua vez, seriam movimentos involuntários que empurram os alimentos... Meu corpo naquele momento era pura Biologia metabólica, pois, apesar de não saber como se chama esse processo quando o que se move é puro ar, ao fechar o fiofó, senti um tremendo peristaltismo ascendente e, se não fecho a boca, tenho certeza que teria arrotado merda pura! Que sufoco! Eu estava suando... O cinema estava lotado, era verdade, mas as três amigas, como se sentiriam elas ao sorverem ar quente em ascensão enxertado de derivados de enxofre impregnando-lhe as narinas? Será que se entreolhariam e soltariam a sentença marcante desses momentos tão íntimos do homem e da mulher, perguntando-se, mutuamente: ‘Mulher, foi você?’. Melhor não arriscar.

Ainda com a mão à boca, tampando sei lá o que – tenho certeza que agi por preciosismo e instinto novamente – resolvi ir ao banheiro. Perdi bons quinze minutos do filme, mas estava feliz, aliviado!

Confuso pela mudança entre o claro do toilette e o escurinho do cinema, retorno ao meu assento de origem quase tateando. Achei minha poltrona. Sentei. Sorri para minha esposa, sem graça – eu sem graça, tá! Minha filha, pra variar, teve que avisar a todos do cinema que eu havia chegado: ‘Estava no banheiro, era papai!’. Claro que respondi apenas com um discretíssimo aceno de cabeça, mas, para meu desespero, dei de cara com as três amigas, todas juntas, sorrindo e olhando pra mim!

Tentei disfarçar as gotas de suor que me escapavam pela face e não dei a mínima para o que elas pensaram de mim. Dispus-me a me concentrar na cena de um beijo, mas quem me beijava ardentemente eram as pregas do fiofó, ardidas e queimando. Senti o prenúncio de que algo... Alívio! Já sem escrúpulos, liberei um daqueles flatos quentes que saem rasgando tudo e que queimam temporariamente até a alma do infeliz que os criou. As mocinhas pareceram incomodadas. Esperei alguma manifestação do público mais próximo – minha esposa até ensaiou um ‘Homem, pelo amor de Deus!’... Mas na tela, a não mais que 3 minutos do final do filme, tudo fica escuro aos poucos. Fantasia? Alucinação? Para desespero dos presentes, a fita pareceu queimar e o homem do rolo (cineastas, ajudem!). O homem do rolo abriu uma portinha e lá de cima gritou:

– Deu uma pane aqui! Preciso consertar. Vocês vão esperar ou querem uma senha?

Optamos pela senha e, na tarde seguinte, retornamos para assistir ao filme Avatar – e que os deuses do paraíso desçam e me ajudem a não me transformar em peristaltismos novamente durante a sessão.

Nijair Araújo Pinto

Crato-CE, 29 de dezembro de 2009.

01h32min

Sofrer


Por que sofrer...

Experimento, tento..

Errei nas escolhas, sei,

agindo inadequadamente.

Não fui apenas ator

neste caso especial.

Tornei-me vítima,

sendo fruto inevitável

do infindo processo humano.

Identifico meu erro primário

não valorando sentido a essa dor.

Se não faz valer a pena,

desvie a imagem da tela, por favor!

Preciso ser sábio.

Burlar minha precariedade...

Se na vida há maldade,

disfunção subjacente do amor,

dela depende o meu perdão.

Como incomoda o comodismo.

E o nascedouro do desamor

perpassa, transfigurado, pelo hábito

do que em nós há de pior.

Quero e devo, sempre:

saborear todo meu tempo.

Quebre, ó tormento, o meu orbe!

Revele-me da vida tudo...

Sou errante, homem ao vento.

Nijair Araújo Pinto

Crato-CE, 29 de dezembro de 2009.

22h04min

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

domingo, 20 de dezembro de 2009

Libido

Clique na foto e leia a poesia...

domingo, 13 de dezembro de 2009

Agressões a Berlusconi


Somos agredidos diariamente por um sem-número de malfeitores travestidos de homens de bem; somos agredidos constantemente em nossa liberdade de viver, em nossa liberdade de agir, em nossa liberdade de pensar e, principalmente, em nossa liberdade de nos indignar.

Somos agredidos no rosto, na mente, na alma... – temos maculado até a imagem de nossos queridos e dignos antepassados, pois nossa atual apatia e ausência de vontade frente a reiterados golpes a que nos submetem, privam-nos da luta renhida, do enfrentamento.

Quando nos batem e não reagimos nada acontece. Eles podem bater. Eles podem enganar. Eles podem burlar leis. Eles podem usurpar. Eles podem tudo! Para eles, as leis funcionam – principalmente as brechas; para eles, o discurso é atraente – principalmente o falso discurso, o maquiavélico, o leviano, insidioso; para eles, cuecas e meias podem ser bancos – principalmente se considerarmos a proximidade com as fedidas áreas que encobrem, num corpo imundo, as máscaras de uma pobre e desprezível criatura humana.

Quando reagimos e batemos, surgem médicos preocupados que nos assustam, tamanho o zelo para com o cidadão de bem agredido. Quando batemos, eles ‘sofrem lesão importante no maciço facial... E fraturam dentes’. Quando batemos, eles são submetidos ‘a tomografia computadorizada que mostra fratura de um elemento ósseo do septo nasal... E por isso precisam ficar hospitalizados’.

Eles, os coitadinhos, são tão sensíveis que se preocupam com o clima de agressão e de ódio que assola o país que governam. Eles temem que essa onda de agressão e de revolta ameace a democracia e certamente se empenharão para que esses atos de violência sejam exemplarmente apurados e os culpados devidamente punidos. Eles, expressamente, externam firme condenação a esse tipo de ação criminosa, a esse ato de violência injustificada que parte de um cidadão comum.

Eles podem tudo! E nós... Não podemos sequer nos indignar?

Quando reagimos e agredimos, somos criminosos, fora-da-lei. Quando eles nos privam de saúde, quando nos sujeitam à nossa própria sorte, quando nos tiram o direito ao lazer, o direito ao bem-estar familiar e a tantos outros direitos que temos por garantias individuais, o que eles são? Esse descaso com o social seria mero esquecimento de homens tão assoberbados?

Quando agredimos, praticamos atos inaceitáveis, inqualificáveis e nossas ações colocam em risco a democrática convivência social... E quando somos agredidos por eles, não existem adjetivações? Claro que existem... Eles, os homens de bem, não fazem muito mais por todos nós porque não podem! Eles, coitadinhos, precisam de atenção, precisam do nosso incondicional e inquestionável apoio. Não podemos agredi-los nunca. Devemos, isso sim, em nome da manutenção da democracia, aceitar, caladinhos, todas essas aberrações que vemos e lemos, todos os dias nos jornais, na TV e nas relações à distância que temos com cada um deles, os coitadinhos.

O povo cansa. Um dia a gente cansa.

Nijair Araújo Pinto
Crato-CE, 13 de dezembro de 2009.
21h37min

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Do espírito dos porcos

.:.
A cidade está em polvorosa. Pelos arredores do povoado inteiro circula a nova pendenga local, o caso dos porcos de D. Firmina. A recém viúva está exatamente agora na sala do juiz, aos prantos, implorando ao magistrado a apreciação de seu caso.

– Excelência! – dizia a pobre senhora. – O barrão do senhor Quermezé não pode ser sacrificado agora. Por Deus, excelência, não permita!

– Calma, senhora! Ainda estamos apreciando o pedido... Hoje teremos nossa audiência de conciliação. Não se aperreie.

– Excelência! É que o senhor não entende. Minha porca está prenha e se o barrão for sacrificado antes do nascimento dos bacurinzinhos, todos os bichinhos morrerão! O senhor nunca ouviu falar disso aqui na região? É dito por todos os antigos que...

– Mas senhora, não há relação lógica nisso. A morte do barrão não vai interferir...

– Vai, sim! Vai, sim! – Vocifera a senhora enlutada, interrompendo o juiz. – Por favor, excelência! Já houve casos na cidade onde os bacurinzinhos morreram por causa da morte do pai... Por favor!

O magistrado solicita a entrada do senhor Quermezé.

– ‘Premissão’! – diz o homem do campo, o dono do barrão Tanhaii. – Vosmicê me chamou?

– Sente-se, senhor!

– Carece não, ‘dortô’!

– Pra quando o senhor pretende sacrificar o seu animal?

– O Tanhaii está muito gordo e velho. Já viveu demais da conta. Por mim ele já estava era morto ‘pra mode’ eu vender a carne e faturar uns ‘trocadim’, mas D. Firmina quase é que me bate quando me viu preparando o material pra sangrar o bicho.

– Você não tem é coração, homem de Deus! Se matar o bicho agora também mata os bacurinzinhos, filhos dele!

– Calma! Calma! – interveio o magistrado. – Senhor Quermezé. A D. Firmina me informou que há na cidade uma tradição de que o barrão morto antes do nascimento da prole implica a morte dos animaizinhos logo após o parto. É verdade?

– Vixe Maria do céu, Excelência! Agora vosmicê me deixou desaprumado. Que diabo que é prole e ‘impricar’? Estou me sentindo é um ‘barcurim’ também pela ‘ingnorança’ minha.

– Quero saber se o senhor sabe que se matar o seu barrão os filhos dele morrem também, é isso.

– Meu barrão nunca tinha cruzado com porca estranha. Sempre coloquei o bicho pra cruzar com as porcas de casa. Como nunca matei o bicho pra ver, não sei informar se é verdade, não senhor.

– Mas é, doutor! O povo diz que morre e não quero perder minha porquinha Tereré. Quem mandou o porco dele emprenhar a bichinha, ora!

– Que é isso D. Firmina! Meu ‘animá’ vive é solto no pasto. A senhora que cuide da sua porca!

– Eu quero agora é cuidar dos porquinhos que o senhor quer matar! Vou dar uns para o senhor quando a porquinha parir, homem de Deus!

– Esperem! Façamos assim – diz o juiz. – Em nome dos costumes, sentenciarei que o senhor, seu Quermezé, aguarde o nascimento dos porquinhos, sob pena de ser o responsável direto pelo óbito dos animais, em havendo morte. Para evitar problemas, o senhor vai esperar. CUMPRA-SE!

– Mas Excelência! Vosmicê não viu nem meu bicho! Ele pode morrer de velhice...

– Morre não! Morre não!

– Vamos correr o risco, senhor – sentenciou o juiz.

Alheios à discussão, Tanhaii e Tereré estavam enamorados comemorando o nascimento dos porquinhos de D. Firmina. Eram bichinhos lindos que se lambuzavam no chiqueiro de Quermezé.

D. Firmina chega a casa. Entra. Vai ao quintal. De repente, da casa de seu Quermezé, ouve-se o grito:

– Onde está a minha porquinha?!

– Está aqui, D. Firmina! Os bichos nasceram...

Hoje, vasculhando os arquivos do fórum, tive acesso a este caso onde os costumes nortearam as ações e a decisão do magistrado.

Tanhaii morreu antes de ser sacrificado. Tereré pariu novos porquinhos e a mística continua invadindo os tribunais da pacata cidade do interior nordestino.

Semana passada houve uma audiência para apurar a responsabilidade do coronel Jucá no inusitado problema causado pela urina de uma de suas vacas, a Dondoca. Conta a declarante que o mijo da vaca alaga o seu curral matando seus galos e galinhas por asfixia mecânica. Mais informações sobre o caso estão contidas nos autos do processo, que corre em segredo de justiça, para preservar a intimidade da multípara quadrúpede bem querente do ilustre fazendeiro.

Nijair Araújo Pinto
Fortaleza-CE, 26 de novembro de 2009.
16h40min

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Era uma vez...

.:.
...Um homem que vivia tendo ideias.

Ele era um homem incomum, pelo menos se julgava assim. Vivia opinando em tudo.

Certo dia alguém deu a ele um poder imenso. Ele pegou seus amigos e os reuniu todos, dando a cada um deles uma fração do poder.

Ao amigo de luta deu o cargo de senhor das armas.

O povo não se importou com a nomeação e a soberania do país ficou abalada – mesmo sem que o povo se apercebesse dessa fraqueza.

A um segundo amigo, deu o cargo de senhor da saúde.

O povo não se importou e o país ficou doente – mesmo enfermidades mais simples acometeram a todos.

A um terceiro amigo ele deu o cargo de senhor dos esportes.

O povo não se importou e, doente, não mais praticou esportes – mesmo assim, o senhor dos esportes permaneceu no cargo.

A um quarto amigo ele deu o poder religioso.

O povo não se importou e no país nunca se viram tantas seitas e religiões surgir por toda parte da nação – mesmo assim, o país, agora essencialmente laico, submeteu-se ao amigo do homem que tinha muitas ideias.

Os homens das armas não se revoltaram contra o senhor das armas, amigo do homem que tinha ideias.

Os homens da saúde não se revoltaram contra o senhor da saúde, amigo do homem que tinha ideias.

Os homens dos esportes não se revoltaram contra o senhor dos esportes, amigo do homem que tinha ideias.

Os homens de fé não se revoltaram contra o senhor das religiões, amigo do homem que tinha ideias.

Um dia, o homem que tinha muitas ideias teve outra ideia e permutou os amigos no poder, sem consultar o povo.

O senhor das armas virou senhor das religiões. O senhor dos esportes virou senhor das armas. O senhor da saúde virou senhor dos esportes e o senhor das religiões virou senhor da saúde.

E o povo não se importou – mesmo sabendo que todos os senhores amigos do homem que tinha ideias não sabiam nada sobre armas, saúde, esportes e religião.

E o homem que tinha ideias continuou tendo ideias.

Certo dia, enquanto sonhava, ele teve outra ideia. Acordou e resolveu executar o que havia pensado no sonho.

Chamou um homem das armas para cuidar das armas. Chamou um homem de religião para cuidar das religiões. Chamou um homem da saúde para cuidar da saúde e, finalmente, um homem dos esportes para cuidar dos esportes.

E o povo não se importou – mesmo sabendo, tempos depois, que as ideias do homem que tinha ideias não foram executadas porque os amigos do homem que tinha ideias o executaram antes que as ideias fossem colocadas em prática.

Hoje, aquele povo, antes forte e soberano, existe apenas nos contos de fada que se iniciam com ‘era uma vez...’.

Nijair Araújo Pinto

Crato-CE, 6 de setembro de 2009.
22h14min

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Justapostos


Anos-luz daqui, bem distante do arco-íris, um médico-cirurgião precisou urgentemente operar uma linda princesa adolescente. Ela cresceu e encontrou seu amor-perfeito.

No império onde a princesa crescera tudo era aos avessos, mas havia felicidade, mesmo quando o monarca cometia injustiças.

O rei não era um típico mandachuva e estava longe de ser déspota, ditador... Ele era, isso sim, um artista de mão cheia! – adorava contemplar os belos quadros do pintor dos girrassois.

Na corte havia muitos soldados. O reino vivia em harmonia, mas não desguarnecia seu aparato defensivo, pois nação com exército fraco é nação sem soberania forte. Havia oficiais capitães, majores... E havia, também, o imponente tenente-coronel Justino, que adora evitar que Quirino, o coronel perversinho, maltratasse os subordinados, distribuindo pontapés.

Justino era benevolente, calmo, e adepto de um delicioso chá de erva-doce que aprendera a degustar com o tio-avô Firmino, Grão-Pará de um antigo imperador. Nos serões de família, eles se esvaíam ao sabor do chá, inebriando-se ao menor rumor da fragrância que percorria os arredores da cozinha.

Já o coronel Quirino era do estrangeiro, descendendo da Grã-Bretanha. Daí sua rispidez e seu trato certeiro e pontual trazidos de além-mar – ele não atrasava nenhuma admoestação.

Hoje é dia de festa. Todos no reino estão exaltados e eufóricos com a chegada da nova confraria de violeiros dissidentes do circo mambembe do reino da Antuérpia.

Dona Naná preparou um feijão-verde para o rei – o bondoso homem carecia de cuidados e não poderia ficar ao deus-dará, nunca. Feijão dá sustança, meu rei! – sempre advertia a doce e fiel serva.

Pratos à mesa. Todos comem. Dois soldados, numa outra mesa, discutem e um deles, à queima-roupa, desfere uma punhalada no amigo. O militar assassino era neto de um antigo guarda-noturno sul-africano, odiado pelo primeiro-ministro do rei.

Dia de luto. Feriado. Festa e consternação se misturam e as visões do mundo e da realidade se interpenetram, insinuando um vazio dentro da completude.

A água-de-colônia da princesa se confunde com o odor emanado pelo féretro do mal-afortunado homem. Do vestido cor-de-rosa da nobre senhorita, pendem feixes bordados de tecido que se esgalham harmoniosamente pelo chão. O mal-estar é geral. Morrera um excelente soldado, um homem sempre bem-humorado que nunca dera trabalho ao rei.

A princesa, bem-vestida e reflexiva, tira uma flor do jardim do castelo e inicia uma silenciosa oração-pedido: ‘bem-me-quer, mal-me-quer, bem-me-quer...’

De repente, surge um belo príncipe que se aproxima e a conforta, dando-lhe um suave beijo, bem-soante, na não.

Ambos bem-nascidos, ele bem-falante, esquecem-se do motivo da constrição que os uniu.

O padre inicia o sermão:

– Bem-aventurado todo aquele...

A voz do religioso, apesar de espalhar conforto a todos, por ser bem-ditosa, era, todavia, malsoante.

Sem-cerimônia, o rei põe fim à missa e se prostra, de joelhos, pedindo, altivamente, um sem-número de vezes:

– Pai, tende piedade de nós!

O poder extra-humano, que transcende ao nosso entendimento, é o melhor e mais potente contra-ataque, é a forma pós-histórica de se reinventar a vida em sociedade.

A rainha decretou feriado no reino em comemoração ao novo herdeiro que nascera. No mesmo instante, no reino que fica a anos-luz daqui, nascia o arqui-inimigo do futuro rei.

Nijair Araújo Pinto

Crato-CE, 6 de setembro de 2009.

20h05min

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

As máscaras


.:.
São exatamente oito horas e dez minutos da manhã de terça-feira. O tenente abre a porta e pede permissão para entrar. Do birô, a não mais que cinco metros de distância dele, o general esbraveja:

– Isso lá são horas de chegar ao quartel, tenente! O expediente inicia oito horas da manhã, camarada, ou você não sabe mais disso, rapaz?

– Mas general...

– Não pedi sua opinião, combatente! Pode ir.

O tenente presta a deferência habitual e se retira, ainda ouvindo intempestivos comentários do oficial-general.

Seis horas da manhã do mesmo dia. O general, ainda em trajes menores, dirige-se ao banheiro. Despe-se. Senta-se... Lê algumas páginas do jornal. Levanta-se. Dá uma olhadinha – em seguida, ouve-se o barulho da descarga.

O fórum está uma correria só. Tem Tribunal do Júri marcado para nove horas e um dos acusados é de alta periculosidade. O caso teve repercussão nacional e por todos os lados existem focos de lentes curiosas tentando o melhor ângulo para a melhor foto e a melhor imagem. O povo quer justiça e a imprensa precisa fazer uma cobertura compatível com o clamor público.

Dez horas da manhã. Inicia-se o procedimento. Advogados falam. Testemunhas falam. De repente, gera-se um princípio de balbúrdia motivado por declarações de um dos réus. O magistrado, incontinenti, bate o martelo:

– Silêncio! Eu exijo silêncio! Estamos num tribunal, senhoras e senhores! Ou mantemos a ordem ou interrompo a sessão!

Vô, acorde! – é a netinha do magistrado que o desperta. Estamos em época de férias escolares e o Meritíssimo juiz tem visitas ilustres em casa. Ele se espreguiça. A netinha já está por sobre ele, pulando em cima do avolumado bucho do avozão. O magistrado solta flatos, sob os protestos veementes da neta, e se dirige ao banheiro onde termina o que já fora anunciado. Ouve-se o barulho da descarga.

Doutor, doutor! Entrou um paciente grave agora na emergência.

– Já verificaram se tem plano de saúde? – é a resposta do médico.

– Não, não deu tempo... Ele entrou muito grave.

– Veja se está com a carteirinha. Tem acompanhante? Na dúvida, peça a caução ao acompanhante, ok! Já estou indo...

O médico chega minutos depois, mas o paciente já está em óbito, teve êxito letal.

O plantão fora exageradamente complicado. Muitas ocorrências graves, muitas intercorrências. Durante o lanche noturno, o doutor comeu algo não muito bem aceito pelo seu organismo e o processo metabólico decidiu expurgar rapidamente o que fora digerido, transformando o quilo numa pastosa mistura, de fétidos odores.

Antes de repassar o plantão, o doutor está, agora, no troninho. E de tantas visitas ao vaso, encontra-se numa situação tal que se pudesse se limparia como as damas requintadas o fazem, à mesa, em festas chiques: apenas passando, suavemente, um lencinho ‘na boca’.

– Onde está o engenheiro da obra? Com uma morosidade dessa a gente não entrega esse prédio nunca! – são os gritos do dono da construtora. Ele descarrega toda a ansiedade no peão, no primeiro que encontra.

– Pois não, seu Oswald!

– Meu amigo, esse treco não está andando por quê? Isso aqui é obra e obra tem que andar, tem que decolar! Temos prazos e prazos devem ser cumpridos, ora!

O engenheiro, já acostumado com os recados do patrão, apenas o escuta, gesticulando com a cabeça.

– Ponha isso pra andar ou cabeças rolarão, entendeu?

– Sim, senhor!

O stress desajustou o aparelho digestivo do seu Oswald e uma fininha, a famosa, o pegou de surpresa. Ele precisou ir ao sanitário obrar, às pressas. Ouve-se o pedido:

– Alguém tem PH aí?

– Tem não senhor! Fizemos o pedido na semana passada, mas ainda não chegou. – responde o engenheiro.

Trinta anos depois. Dia 2 de novembro... No único cemitério da cidade estão ladeados: o General, o Excelentíssimo juiz, o Doutor e o senhor Oswald.

Num dos túmulos, localizado na área pobre do campo-santo, encontra-se uma senhora que chora pelo pai morto brutalmente por traficantes durante um assalto. O criminoso fora condenado, mas tinha sido solto pelo indulto de Natal. Em liberdade, praticara novos crimes e, num desses, durante a fuga, alvejara o pai da senhora e mais três policiais. Os quatro morreram – três no local. O pai da senhora ainda chegou a ser socorrido, mas não resistiu ao dar entrada no hospital por causa da demora no atendimento.

A esposa do general também já faleceu. Apenas netos reverenciam o avô, silenciosamente.

O magistrado era divorciado e a esposa tivera filhos apenas frutos de uma união estável posterior.

Os familiares do médico, filhos e netos, atribulados com a correria da profissão, estavam de plantão, todos, e não visitaram o patriarca.

E o seu Oswald, de origem estrangeira, não tinha quem o levasse flores – a família não o quis enterrar no país de origem e agora ele descansava em paz, na solidão de entre continentes.

E a senhora, ainda inconformada, teimava em chorar, como o fazia desde o primeiro dia da viuvez, rogando a Deus por justiça ainda aqui na terra.

... E na fashion week da mesma cidade, uma modelo famosa, top model, acaba de destratar uma das camareiras, exatamente às 18h. A modelo, durante o voo, passou mal e teve que se dirigir, às pressas ao toalete.

Nijair Araújo Pinto
Crato-CE, 19 de agosto de 2009.
13h35min

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

As máscaras


.:.
São exatamente oito horas e dez minutos da manhã de terça-feira. O tenente abre a porta e pede permissão para entrar. Do birô, a não mais que cinco metros de distância dele, o general esbraveja:

– Isso lá são horas de chegar ao quartel, tenente! O expediente inicia oito horas da manhã, camarada, ou você não sabe mais disso, rapaz?

– Mas general...

– Não pedi sua opinião, combatente! Pode ir.

O tenente presta a deferência habitual e se retira, ainda ouvindo intempestivos comentários do oficial-general.

Seis horas da manhã do mesmo dia. O general, ainda em trajes menores, dirige-se ao banheiro. Despe-se. Senta-se... Lê algumas páginas do jornal. Levanta-se. Dá uma olhadinha – em seguida, ouve-se o barulho da descarga.

O fórum está uma correria só. Tem Tribunal do Júri marcado para nove horas e um dos acusados é de alta periculosidade. O caso teve repercussão nacional e por todos os lados existem focos de lentes curiosas tentando o melhor ângulo para a melhor foto e a melhor imagem. O povo quer justiça e a imprensa precisa fazer uma cobertura compatível com o clamor público.

Dez horas da manhã. Inicia-se o procedimento. Advogados falam. Testemunhas falam. De repente, gera-se um princípio de balbúrdia motivado por declarações de um dos réus. O magistrado, incontinenti, bate o martelo:

– Silêncio! Eu exijo silêncio! Estamos num tribunal, senhoras e senhores! Ou mantemos a ordem ou interrompo a sessão!

Vô, acorde! – é a netinha do magistrado que o desperta. Estamos em época de férias escolares e o Meritíssimo juiz tem visitas ilustres em casa. Ele se espreguiça. A netinha já está por sobre ele, pulando em cima do avolumado bucho do avozão. O magistrado solta flatos, sob os protestos veementes da neta, e se dirige ao banheiro onde termina o que já fora anunciado. Ouve-se o barulho da descarga.

Doutor, doutor! Entrou um paciente grave agora na emergência.

– Já verificaram se tem plano de saúde? – é a resposta do médico.

– Não, não deu tempo... Ele entrou muito grave.

– Veja se está com a carteirinha. Tem acompanhante? Na dúvida, peça a caução ao acompanhante, ok! Já estou indo...

O médico chega minutos depois, mas o paciente já está em óbito, teve êxito letal.

O plantão fora exageradamente complicado. Muitas ocorrências graves, muitas intercorrências. Durante o lanche noturno, o doutor comeu algo não muito bem aceito pelo seu organismo e o processo metabólico decidiu expurgar rapidamente o que fora digerido, transformando o quilo numa pastosa mistura, de fétidos odores.

Antes de repassar o plantão, o doutor está, agora, no troninho. E de tantas visitas ao vaso, encontra-se numa situação tal que se pudesse se limparia como as damas requintadas o fazem, à mesa, em festas chiques: apenas passando, suavemente, um lencinho ‘na boca’.

– Onde está o engenheiro da obra? Com uma morosidade dessa a gente não entrega esse prédio nunca! – são os gritos do dono da construtora. Ele descarrega toda a ansiedade no peão, no primeiro que encontra.

– Pois não, seu Oswald!

– Meu amigo, esse treco não está andando por quê? Isso aqui é obra e obra tem que andar, tem que decolar! Temos prazos e prazos devem ser cumpridos, ora!

O engenheiro, já acostumado com os recados do patrão, apenas o escuta, gesticulando com a cabeça.

– Ponha isso pra andar ou cabeças rolarão, entendeu?

– Sim, senhor!

O stress desajustou o aparelho digestivo do seu Oswald e uma fininha, a famosa, o pegou de surpresa. Ele precisou ir ao sanitário obrar, às pressas. Ouve-se o pedido:

– Alguém tem PH aí?

– Tem não senhor! Fizemos o pedido na semana passada, mas ainda não chegou. – responde o engenheiro.

Trinta anos depois. Dia 2 de novembro... No único cemitério da cidade estão ladeados: o General, o Excelentíssimo juiz, o Doutor e o senhor Oswald.

Num dos túmulos, localizado na área pobre do campo-santo, encontra-se uma senhora que chora pelo pai morto brutalmente por traficantes durante um assalto. O criminoso fora condenado, mas tinha sido solto pelo indulto de Natal. Em liberdade, praticara novos crimes e, num desses, durante a fuga, alvejara o pai da senhora e mais três policiais. Os quatro morreram – três no local. O pai da senhora ainda chegou a ser socorrido, mas não resistiu ao dar entrada no hospital por causa da demora no atendimento.

A esposa do general também já faleceu. Apenas netos reverenciam o avô, silenciosamente.

O magistrado era divorciado e a esposa tivera filhos apenas frutos de uma união estável posterior.

Os familiares do médico, filhos e netos, atribulados com a correria da profissão, estavam de plantão, todos, e não visitaram o patriarca.

E o seu Oswald, de origem estrangeira, não tinha quem o levasse flores – a família não o quis enterrar no país de origem e agora ele descansava em paz, na solidão de entre continentes.

E a senhora, ainda inconformada, teimava em chorar, como o fazia desde o primeiro dia da viuvez, rogando a Deus por justiça ainda aqui na terra.

... E na fashion week da mesma cidade, uma modelo famosa, top model, acaba de destratar uma das camareiras, exatamente às 18h. A modelo, durante o voo, passou mal e teve que se dirigir, às pressas ao toalete.

Crato-CE, 19 de agosto de 2009.
13h35min

Aparição


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Quase nada se sabia daquele homem. O que se tinha de concreto era que ele ostentava um nariz adunco, aquilino. Vivia silenciosamente entre os vizinhos, mas as pisadas, sinais grafados ao longo da estrada carroçal, denunciavam sua passagem.

Nas últimas sete semanas formou-se um ritual ao longo das ruas. Todos os curiosos moradores o espreitavam passar, não se sabia para onde, pontualmente às sete horas da manhã, retornando, sem atrasar um segundo sequer, às dezessete horas, quando o sol já se mostrava cansado e ansioso por deitar.

Tão logo a imagem dele surgia, translúcida, mas tremida, diante de nós, o sino da única igreja da cidade soava em estridulosas badaladas. Eram exatamente 14 badaladas, nem a mais nem a menos! Quem anunciava quem? Estaria o homem a atrair os repiques? Ou ele ressurgia, metafisicamente, ao som das uníssonas badaladas provocadas pelo serventuário da capela? O homem parecia materializar-se aos arrufos do sino... O povo delirava. O tempo estava sincopado, nossas mentes estavam sincopadas e as tradições pareciam quebradas pela aparição daquele homem. Ora, os sinos sempre dobraram uma hora antes da Ave Maria!

Aquele homem pesado, gordo e de cheiro forte percorria as veredas do vilarejo, até onde nossa visão podia buscar, e depois sumia... Minha acuidade visual não era das melhores, nunca foi, mas eu o sentia, mesmo assim, sumindo como aroma de perfume Francês, deixando saudade.

Estávamos presos àquele homem. Vivíamos em função da rotina que ele, inconscientemente, criara em todos nós. A cidade girava em torno das habitualidades dele.

Se possuía algum passado, ele o deixara perdido no tempo, acorrentado, talvez, apenas às recordações que o perseguiam durante as caminhadas pendulares dos dias que se seguiam, firmes e pontuais como o respirar de cada ser humano, aceitando as interferências decorrentes dos resfriados, das tosses e do suplício dos asmáticos que respiram como se tragassem um entorpecente de efeito alucinógeno e causticante. Impossível caminhar sem refletir. Estaria ele preso a recordações? Ele nunca nos olhara diretamente. Nunca o percebi admirando a beleza do horizonte. Caminhava cabisbaixo como a sofrer o peso do fardo que o consumia a si mesmo.

Meu poder estava na insistência. Minha fraqueza, na falta de coragem. Eu e todos os outros apenas o olhávamos e observávamos... Nada de o seguirmos. Afinal, pra onde ele se dirigia todas as manhãs? O que fazia?

Quis investigá-lo. Não havia cheiro de comida. Não havia sinal de móveis. Nunca sequer tínhamos escutado qualquer sinal da descarga do banheiro da acanhada residência de apenas três cômodos!

Ninguém dava notícia da sua instalação. Se chegou de madrugada não pediu ajuda; se chegou durante o dia e não percebemos, deve ter chegado dos céus, pois suas pesadas pegadas o denunciariam acusticamente – mesmo que não o ouvíssemos chegar, os sulcos das pegadas seriam encontradas depois por qualquer morador desavisado, pois éramos tão íntimos que nos conhecíamos até pelos rastos deixados ao longo do único caminho que nos ligava ao que achávamos tratar-se de civilização.

Ele caminhava. Nenhuma saudação – nem de lá nem de cá. Temíamos dar um “Bom dia!” – e se não obtivéssemos nenhuma resposta?

Ele retornava, suado. Eram dezessete hora! A cada dia se mostrava mais carcomido pelo sol.

Eu desejava ouvir um “Boa tarde!” daquele homem; queria pelo menos isso, poder cumprimentá-lo, mas como o chamaria: de ‘Seu Zé’? Ele parecia um homem instruído, apesar das pegadas de elefante que tremiam os torrões do nosso árido chão, levantando poeira. Ele usava sempre roupas brancas, roupas parecidas ou iguais, não saberia precisar porque o que nele me atraía, além do nariz de águia, era o estrondo de cada uma de suas pisadas ao deambular.

Ele passa por mim e, mais uma vez, nenhuma saudação...

Cinco. Seis. Sete passos. Pronto, ele está em casa. Entra. Fecha a porta e nada de movimentação. Nem TV, nem fogão ligado. Nem descarga! Ele respira? Com o ouvido grudado à porta, não percebo nenhum sinal de vida – o estático parece ser a única dinâmica permitida. Silencio. Aquele lar me fez ouvir minha própria respiração, numa luta ferrenha com o cantar de um grilo que me atormenta! Pronto, pisei no desgraçado e agora posso auscultar a pulsação daquele homem. Outro grilo começa a cantar...

O dia ensaia amanhecer. O sol parece ainda cansado como se a noite tivesse sido uma deliciosa pândega.

Exatamente às seis horas, canta o galo da D. Quequé, o meu galo preferido. Sinto-me sôfrego, demasiadamente malsofrido. Naquele dia eu romperia a barreira do silêncio, já estava decidido, e dirigiria àquele homem de nariz aquilino, distante apenas sete passos da minha casa, um “Bom dia, Seu Zé!”

Sete passos... Sete horas... As janelas das casas do vilarejo se entreabrem todas ao mesmo tempo. Era o balé da bisbilhotice. Percebe-se que carinhas curiosas e fofoqueiras se escondem atrás das frestas.

O galo de D. Quequé canta. Eita galo pontual!

Sete minutos depois algumas cabeças, não satisfeitas, ultrapassam a fronteira das janelas e, parecendo galos e galinhas presos em celas, ficam todas, assustadas, olhando para os lados, na esperança de que o homem surja diante de nós. Nada, nenhum sinal.

Olhávamos todos. Observávamos também, mas nada de agirmos. Estávamos presos aos nossos próprios medos e divagações.

Passaram-se sete dias. Mudei de cidade, sentindo um alívio hercúleo – talvez minha tão desejada ataraxia não pudesse mesmo ser atingida ali, num lugar enxertado de homens e mulheres que temiam a vida com a mesma intensidade com que tememos a morte. Minha alma estava distante dos seus prazeres sensíveis e espirituais. Precisei partir sem deixar nenhuma saudade além da que carregaria comigo como uma impingem que coça em demasia, doi de forma extremada, mas causa um pouco de prazer quando nos sangra a pele.

Aos poucos, o vilarejo se esvaziou como se uma faca o tivesse atingido, dilacerando as vísceras e provocando no corpo social uma hipovolemia fatal. Onde havia esparsas moradias virou, aos poucos, o habitat de pássaros silvestres e de répteis asquerosos e tão indesejáveis como todos os que ali habitaram.

Hoje, já velho e bem mais perto do recomeço, ainda sinto o vazio da frustração de, por puro medo, não ter dito um “Bom dia!” àquele ilustre desconhecido, enquanto a vida nos permitiu coabitar. E, nos meus sonhos, ainda ouço as pegadas dele e o seu cheiro forte – cheiro que se tornou insuportável por vários dias, até que o último habitante fosse embora sem poder nos contar o que realmente aconteceu na casa que ficava a sete passos da minha. Casa que, ainda hoje, permanece fechada e silente como o fez seu mais ilustre morador.

Talvez os possíveis futuros moradores, numa redescoberta daquele vilarejo, possam, por mero acaso, encontrar os vestígios de vida que um dia ali se fez existir ou verificar que no interior daquela habitação nunca houve sinal de vida, que se tratou de edificação morta ou fruto apenas da imaginação de todo um povoado que precisava de superstições para sobreviver.

Nijair Araújo Pinto
Crato-CE, 16 de agosto de 2009.
03h44min